quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O meu olhar é nítido como um girassol!

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro (FP)

domingo, 22 de novembro de 2009

**16.11.2007**


O mar e o céu vivem de mãos dadas no horizonte. São como siameses que o universo separou para que a Terra pudesse existir,
Tu és o meu mar, e eu sou o teu céu!
Todos os dias e todas as noites, então me invades e me chegas e me invades e me tomas e me perdes e te derramas sobre mim… com os teus olhos sempre intensos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências e me concentro inteira em ti!
O meu mar é alto, esguio e infinito! Tudo nele é grande e ao mesmo tempo perfeito, do tamanho dos olhos e do seu coração. Possui um cabelo farto e despenteado, como tão bem lhe compete e melhor lhe assenta. Parece eternamente jovem e reina sobre tudo o que o rodeia sem sequer dar por isso. Tem um ar puro e adocicado, e dos olhos imensos é como se caíssem fios de mel que suavizam todos os gestos.
A voz é grave, serena e quente, própria de seres que não são bem deste mundo. Nos dedos imensos e nas mãos grandes adormece o meu coração…
Ele não sonha o quanto as pessoas gostam e precisam dele, mas há mares assim! Que não adivinham o que são, como se fossem iguais a outros mares, e que encolhem os ombros perante os seus defeitos, numa discrição congénita, quase tímida, quase infantil, desconhecendo o imenso poder que emanam!
O meu mar é só meu, e dentro dele leva metade de mim…
MR

domingo, 8 de novembro de 2009

A tristeza e a Alegria...

A nossa alegria é a nossa tristeza sem máscara! O poço onde corre o nosso riso esteve muitas vezes cheio de lágrimas.
Como poderia ser de outra forma?
Quanto mais fundo a dor escavar a nossa alma, mais alegria caberá em nós! Quando estiveres alegre, olha para o fundo do teu coração, e verás que aquilo que te dá alegria não é senão aquilo que te deu tristeza.
quando estiveres triste, olha de novo para o teu coração e verás que realmente choras por aquilo que antes te tinha encantado!
Alguns dirão:
A alegria é maior que a tristeza, outros que a tristeza é maior. Pois eu digo-te que são inseparáveis! Vêm juntas, e quando uma se senta contigo à mesa, lembra-te.... que a outra dorme na tua cama!
Khalil Gibran

domingo, 1 de novembro de 2009

É sonho?





"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa.
Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me! Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos que me constrange e tranquiliza.
Tento descobrir a face última das coisas e ler a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão inacessível! Venho à varanda e debruço-me para a noite. Quanta coisa aprendi e sei que está aí à minha disposição. Neste instante fugidio, apaziguado, eu me esqueço à quietude desta lua irreal sobre a terra, realizada em dádiva e fertilidade À memória de uma inocência outrora e para sempre reinventada em música, a uma hora de cansaço entre uns dedos indefesos e a luz derradeira de um dia de Inverno, e eu me esqueço ainda, ao anuncio de alguém numa porta que se abre, e que me procura e me toma as mãos e as molda, à luz da lua, na flor breve e miraculosa de uma profunda comunhão. É SONHO??? " Virgílio Ferreira